bette davis' eyes

As Madonnas não morrem nunca


Tive uma overdose de Michael Jackson nesse fim de semana. Todos os canais do mundo estavam passando entrevistas, documentários, clipes e shows daquele que, há uma semana, lembraram ter sido o maior artista pop de todos os tempos.

Todos falavam do seu talento inigualável, que MJ nunca foi uma marionete dos produtores musicais etc... Concordo. Michael tinha talento, mas não segurava o modelão.




Voltando ao artigo que publiquei, não sei se ficou claro que, embora triste com sua morte, nunca fui seu seguidor, tampouco seu fã, porque ele se negava e aquilo me deprimia.

Até aí, problema meu não gostar dele. Além disso, não me interesso muito pela vida real dos artistas. Gosto deles no palco mesmo. Se lá em cima eles criam uma fantasia autêntica, fico feliz e satisfeito.

Domingo vi um trecho da turnê de "HIStory" que passou no Multishow. Se não me engano isso era 1996. Deprimente é a palavra para definir aquilo. Michael Jackson fica o tempo todo interpretando um "personagem" que, no fundo, não passa de um arremedo de si mesmo. As coreografias e as performances são todas as mesmas que ele fazia em 1983. Fora isso, os intermináveis momentos ONG: coral de criancinhas pobres, bailarinos vestidos como flagelados da fome na África. Enfim, um saco, afinal, aquilo era um show de música pop, não o caderno mundo.

Mas, e a música? A música continuava a mesma. Boa, muito boa, mas datada. Não havia evolução e modernização nos arranjos, nas performances, nas coreografias...

No almoço que tive com o Groucho nessa semana falei disso e fiz a inevitável comparação com a Madonna. Não queria escrever sobre isso porque o momento era do MJ e tal. Mas, na verdade, o momento atual ainda é da Madonna. O Michael só desencarnou.

Disse que o momento atual era da Madonna porque, daqui a quatro dias, estréia a segunda perna da turnê "Sticky and Sweet" que assistimos aqui em dezembro e que, do ano passado para cá, já evoluiu. A setlist terá alterações, as performances sofrerão mudanças, enfim, tudo será trazido para este ano, porque 2008 já era.

Se MJ revolucionou a música pop com "Thriller" (e eu acho que ele revolucionou mesmo), parou por ali. Enquanto Madonna aperfeiçoou tudo que ele criou.

Quando MJ canta um sucesso antigo, é quase como ouvir o CD. E, se for para ouvir o CD, ninguém precisa sair de casa, ficar horas na fila de um estádio para ver algo que ja viu mais de perto e mais nitidamente na TV. Um show tem que ser uma experiência catártica.

Quando Madonna canta um sucesso antigo, essa música é trazida para uma nova sonoridade, seja do último álbum lançado, como "Vogue" mixada com "4 Minutes", seja com a linguagem das raves, como "Like a Prayer" mixada com "It Feels Like Home", seja com a disco dos anos 70, como "Hung Up" com sample de "Gimme, Gimme, Gimme" do Abba.

Ou seja, as músicas da Madonna dialogam com outros ritmos e artistas. A música de Michael Jackson é perfeita, mas é megalomaníaca como ele, vive enjaulada em sua "Neverland". Se para Madonna "time goes by so slowly", para Michael o tempo foi cruel.

Digo tudo isso porque hoje vi, no Papelpop, o vídeo abaixo, uma coletânea de vários momentos do show ocorrido em Buenos Aires em dezembro do ano passado e fiquei louco pra ver tudo de novo. Mal posso esperar pelo DVD.



É por isso que sempre gostei mais da Madonna. Ela entrega o produto direitinho. Michael Jackson morreu. Madonna will die another day.

E chega desse assunto!

Publicado em 03 de julho de 2009 às 14:33 por margo

Tags:

"Twittando" com Mercadante


O Senador Aloísio Mercadante andou publicando em seu Twitter algumas considerações sobre o recuo do PT em relação ao afastamento de José Dinossauro Sarney da presidência do Senado.

Conforme publicado hoje na Folha e em outros jornais do país, o coroné chamou Mercadante e Ideli Salvati em sua sala e executou uma ação digna de seu currículo político, a chantagem, na tentativa de não largar o osso de jeito nenhum.

Mercadante começou aqui:

O PT tem consciência de sua responsabilidade. É minoria e não aprova mudanças que o governo Lula quer sem o apoio do PMDB.

Mas não abdica da sua luta ética e por isso defende reformas profundas administrativas e financeiras.

O PT não votou no senador Sarney para a presidência da Casa, não o apoiou. Mas não vai se comportar como os Democratas.

O DEM teve a chave do cofre nos últimos 14 anos e agora dizem que não tem nada a ver com a crise.

Nesses 14 anos de atos secretos, Sarney foi presidente por 4 anos. E o resto do tempo é uma indagação. O DEM também tem que explicar isso.

Temos que descobrir todos os responsáveis por este descalabro.

Muitos que querem Sarney fora querem assumir o Senado para fazer oposição ao presidente Lula.


E Margo Channing replicou abaixo:

Senador, muitos dos que querem Sarney fora (grande parte da população), é por não suportar mais o coronelismo institucional. #forasarney

Agora, que o Congresso possui em sua formação uma parcela significativa de oportunistas, não há dúvidas. #forasarney

Mesmo assim, o oportunismo da oposição não implica na permanência de Sarney na presidência da Casa. #forasarney

Afinal, é preferível negociar com esse arremedo de Odorico Paraguassu a tentar negociar com a oposição? #forasarney

É preferível manter o governo recebendo ameaças de que o PMDB abandonará a base aliada? Isso não é chantagem? #forasarney

O Lula é o presidente da República ou um refém do Sarney e do PMDB? #forasarney

Quem sabe não seja uma oportunidade de o presidente negociar com o PSDB e abrir um novo capítulo na política. #forasarney

O que não dá é arcar com o ônus político de manter Sarney no poder. A população está farta dessa figura arcaica. #forasarney

E, por favor, Senador, vamos parar de chamar o PFL de Democratas. Eles mudaram o nome por vergonha de suas implicações semânticas. #forasarney


Esse Twitter é uma maravilha, né, minhas amiguinha?



Publicado em 02 de julho de 2009 às 15:27 por margo

Tags:

Normalpatia


Hoje tem um artigo do João Pereira Coutinho na Folha falando sobre como a psiquiatria moderna transformou tudo aquilo que acreditávamos serem manias inocentes em patologias.

Segundo o artigo, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder", um manual de referência da American Psychiatric Association publicado desde 1952 e revisto de década em década, incluirá novas
"doenças", como assaltar a geladeira durante a noite, o vício em internet, o gosto por vários parceiros sexuais e até colecionar quinquilharias.

Pelo jeito eu e muita gente que conheço vamos parar na camisa de força logo, logo...

João Pereira Coutinho termina seu artigo dizendo que, ao que parece, a única doença tolerável é a normalpatia.

Coutinho está longe de ser meu articulista favorito. Mesmo assim, não posso deixar de concordar com ele. Agora há pouco, no Twitter, publicaram o seguinte "tweet": "O que Lady GaGa tem na cabeça? O pior chapéu do mundo."

Beleza, os modelos da Lady GaGa são os mais excêntricos, dificilmente alguém iria trabalhar com um chapéu gigante em forma de botão, mas vamos concordar que aquilo combina bem com o personagem que ela criou? E outra: o pior chapéu do mundo na opinião de quem? De uma pessoa que nem usa chapéu?

Estou usando um exemplo radical. Então, vamos ao corriqueiro cotidiano de um local de trabalho supostamente "mente aberta". Hoje estou com uma camisa de estampa de florzinhas roxas com bordas verdes em um fundo branco. Trata-se apenas de uma camisa estampada de mangas curtas, nada mais. Mas bastou isso para eu ouvir inúmeros comentários sobre como eu tenho estilo (leia-se "como você gosta de aparecer").

Ontem era meu tênis Adidas vermelho. Também não vejo nada de excêntrico naquele tênis. Tanto que ele é vendido em lojas de artigos esportivos de qualquer shopping center fuleiro de São Paulo. Mesmo assim, teve quem se desse ao trabalho de olhar nos meus pés e comentasse a cor do tênis.

Taí coisa que me surpreende. Uma parte do corpo que nunca olho é os pés das pessoas. Olho nos olhos, na boca, no cabelo, nos peitos, no desenho dos ombros, nas tatuagens, nos piercings, na bunda e na mala, mas nunca nos pés.

É o famoso "medir dos pés à cabeça". Puta coisa chata. Eu não fico falando pra ninguém "nossa, como você é ordinário" ou "nossa, como você está barrigudo, gordo, magro, cheio des espinhas"... Até penso, às vezes comento com alguém mais próximo, rio, tiro sarro, mas nunca me dirijo a ninguém com eufemismos carregados de ironia.

E o que mais me surpreende ainda é que a pessoa venha com esse tipo de comentário justo para mim que, como bem descreveu o Groucho, sou praticamente a mãe da ironia, além, é claro, de segurar o modelão.

Mas, voltando ao artigo, acho que o único equívoco do Coutinho foi não ter elaborado a descrição clínica da normalpatia.

S. f.
1. Doença que acomete as pessoas ditas normais, que gostam de passar despercebidas, mas que não gostam de ser solitárias. Essa patologia leva o seu portador a querem viver em um mundo sem graça, sem cor e a se divertir apenas com aquilo que seja socialmente aceito. O principal sintoma é a hostilização eufemística e irônica do diferente. O principal exemplo da manifestação da doença está na admiração por Stefhany, a Beyoncé do Piauí. Embora diga que a ama, o público que assiste aos vídeos e apresentações dessa jovem na verdade gosta de vê-la se expondo ao rídículo. Assim, sentem-se melhor em sua mediocridade. Há, inclusive, registros de que o ditado em inglês "misery loves company" (sofrimento detesta solidão) foi inspirado na observação do comportamento recalcado dos normalpatas. A doença, no entanto, tem uma peculiaridade: não afeta seu portador, apenas os que com ele tenham contato. A única forma de evitar sua ação é o uso de máscaras sociais, o que inexoravelmente implica na contaminação do interlocutor.

Publicado em 30 de junho de 2009 às 19:22 por margo

Tags:

Michael Jackson era o monstro dançarino de "Thriller"


A gente fica triste quando morre um cara como o Michael Jackson porque ele fez parte da nossa vida. Às vezes, um artista pop parece ser a única pessoa que nos entende. No meu caso, além disso, Michael Jackson me ajudava a me sentir menos sozinho no mundo e menos diferente das outras pessoas, menos estranho, menos bizarro...



Era a época em que eu ainda tinha medo de filmes de terror. Não existia a MTV no Brasil e o único meio de ver videoclipes era o "Fantástico". Naquele domingo de 1983 foi exibido "Thriller", o videoclipe mais caro do mundo, que serviria para levar ao topo das paradas o álbum que seria o mais vendido da história da música.

Eu olhava para a barriga da minha mãe tentando imaginar como seria meu irmãozinho. De repente, aquela figura ambígua surgiu na tela da TV. Dançando e rebolando entre monstros e diluindo em minha cabeça as fronteiras entre o masculino e feminino. Fiquei vidrado.

Até então, para mim, homem de cabelo comprido só Jesus Cristo. Rebolado era coisa de mulher e monstros nada tinham a ver com música. Mas Michael Jackson misturou tudo isso e fez uma música de terror, um 'thriller musical', sei lá... Naquela noite fui dormir com minha mãe de tanto medo...

Quando, mais tarde, ele lançou "Dangerous", meu irmão, que na época em que "Thriller" foi lançado estava na barriga, repetiu a cena que protagonizei. Ficou vidrado em frente à TV vendo "Black or White", a música auto-indulgente de Jackson que na década de 1990 tentava justificar todo o processo de mudança de cor de sua pele, no mesmo "Fantástico".

À medida em que eu crescia, Michael embranquecia e se tornava tão repulsivo visualmente quanto os monstros de seu sucesso mais famoso. Ao mesmo tempo em que o hedonismo premeditado de Madonna me ajudava a afirmar minha sexualidade, Michael Jackson se esmerava em se transformar em uma criatura desconstruída. Eu me afirmava e ele se negava. Não suportava ver aquilo. Me perguntava por que ele não assumia o que era?

Hoje, quando via Twitter anunciavam sua morte, fui entender. Ele, a cada plástica, estava afinal assumindo o que era: um monstro dançarino saído de um videoclipe. De certa forma, "Thriller" era o anúncio de sua fantasia. Morreu com ele um pedaço da minha infância.

Publicado na Folha Online

*******


P.S.: Além disso tudo, uma pessoa que consegue fazer uma cerimônia chata como um casamento em algo como esse vídeo abaixo merece todas as minhas reverências.

Publicado em 26 de junho de 2009 às 00:45 por margo

Tags:

Aula de Jornalismo nº 2: o mau gosto (ou o dia em que a morte me fitou os olhos)


Como grande parte dos leitores de jornal é de classe média para cima, volta e meia recebemos cartas e e-mails indignados com o "mau gosto" na divulgação de determinadas imagens, principalmente no tocante às coberturas de guerras, conflitos civis, rebeliões em prisões e quase tudo que envolva violência.

O argumento dos leitores é que eles não querem ser chocados logo no café da manhã com a imagem de um corpo ensanguentado ou de uma criança subnutrida.

Há ainda aqueles que implicam até com o "pelo menos". Por exemplo, quando há um acidente de avião, na medida em que os corpos vão sendo contados, é comum que se publiquem notas dizendo que, até aquele momento da publicação, foram encontrados "pelo menos" X corpos.

Os leitores acham que o "pelo menos" é uma forma pouco otimista com a qual o jornalista olha para o fato, pois, segundo eles, usando essa expressão, matamos as esperanças de que se encontre alguém vivo. O caso não é esse. Acontece que os jornalistas lidam com a realidade. E a realidade é dura e inexorável, principalmente em se tratando de acidentes aéreos, conforme demonstrei no post "O Alívio Estatístico dos Aviões".

Se escrevêssemos novelas, quem sabe tivéssemos a obrigação de escrever um final feliz para as histórias. Não é o caso. Mesmo assim, a Folha Online optou por usar "ao menos" em vez de "pelo menos", pois uma preposição faz muita diferença para quem está na expectativa de encontrar um ente querido com vida.

Na segunda-feira, enquanto escrevia meu comentário alienante sobre Lady GaGa, assisti ao vídeo da iraniana morta em meio aos protestos contra o resultado das eleições no Irã.

Aquilo me encheu de desespero e me fez entender os leitores. Muita gente da redação não quis ver. E não os condeno. Fui então para casa me questionando se aquele vídeo deveria ter sido publicado.

Muitos leitores devem ter questionado o "mau gosto" dos veículos de comunicação em divulgar um vídeo em que a morte nos fita os olhos de forma tão brutal. Não é coisa para acompanhar um café da manhã, um almoço, um jantar e momento nenhum do dia.

Mesmo assim, penso que esse vídeo foi acertadamente divulgado, a despeito do sensacionalismo das imagens. Nesse caso, foi mostrado com o intuito de ser mesmo de muito mau gosto. Estamos muito acostumados com a violência ficcional, com a guerra hollywoodiana e com o conforto dramatúrgico proporcionado pela séries de TV em que o vilão sempre morre e o mocinho sempre sobrevive. Achei necessário que a morte olhasse nos olhos de todo mundo e nos tirasse de nossa confortável ilusão de que o bem sempre triunfa.

Mesmo eu, que já tinha ouvido o estampido da morte e sentido o seu cheiro, nunca havia me deparado com seu olhar desesperado e vazio. Nunca me esquecerei dele. E espero que mesmo aqueles amantes do bom gosto não se esqueçam, porque há certos ódios que devemos cultivar.

*******


Ainda espero as aulas, coleguinhas...

Publicado em 24 de junho de 2009 às 16:26 por margo

Tags:

Lady GaGa e a Lojinha do Pop


Quando vi aquele incrível vestido transparente de bolhas, pensei que era apenas mais uma das excelentes metáforas involuntárias que a indústria cultural acaba gerando para a máxima de que "tudo que é sólido desmancha no ar".

Passei umas boas três semanas zoando meus amigos e meu namorado. Tentei convencê-los de que Lady GaGa não era a "nova Madonna", que sua musicalidade me lembrava aquele "poperô grudento" dos anos 90 e que eu achava que, no fundo, ela não passava de uma nova La Bouche ou, no máximo, uma Corona com o timbre de voz da Christina Aguilera, os figurinos da Britney Spears e, vá lá, o mesmo esquema cênico e postura da Madonna.

Meu discurso negacionista resistiu até sábado passado. Ao ver a apresentação ao vivo do hit 'Poker Face' no programa da Ellen DeGeneres pelo Youtube, entendi porque a chamam de "a nova Madonna".



Na verdade, Lady GaGa parece ter passado pela lojinha do pop. Esteve na prateleira do Michael Jackson e pegou as luvas, alguns passos de dança não tão óbvios como o 'moonwalker' e aquela atmosfera 'street dance' de seus clipes.

Depois, passou pela seção princesas do pop. Pegou o figurino de policial-cachorra-dominatrix da Britney, o timbre de voz e os falsetes da Christina Aguilera e o rap de boutique da Fergie e da Gwen Stefany.

Mas foi no andar da Madonna que ela pegou os principais itens: controle total de cena e de palco; bailarinos como extensão da própria imagem; coreografias marcantes para cada música; estética do videoclipe; o sutiã pontudo, dessa vez cuspindo fogo; apresentações nos programas mais populares das TVs europeias e americanas para conquistar as
massas; sugestões de bissexualidade; músicas falando de sexo implícito, dinheiro e fama; uso consciente da mídia e até a figura do Mr. DJ está em cena com ela.

Parece um tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E é, pois todo artista pop, em começo de carreira, tem que mostrar a que veio. E Lady GaGa veio para passar por cima de todas as outras, Madonna inclusive, já que ela tem o que a rainha não tem: alcance e controle vocal, mesmo dançando.

Não é a toa que Madonna, por influência da filha, e Cindy Lauper levantaram de seus tronos e foram, no mesmo dia, a um show de Lady GaGa em Nova York. Dá até para imaginar a cena de Madonna ligando para seus produtores e dizendo: 'Arranja um jeito de eu beijar a Lady GaGa na boca.'

Mas, já que ela é um amontoado de referências visuais, porque ouvi-la, já que, em um primeiro momento, música é o que menos importa em Lady GaGa?

A resposta para isso está nas apresentações ao vivo. Como hoje em dia o que dá dinheiro são os shows, Lady GaGa mostra que, antes de tudo, entende de arranjos musicais (estudou piano por muitos anos) e que sua experiência em apresentações em clubes noturnos de Nova York, concursos de miss e em promoções baratas em rádios lhe deram a presença de palco que todo artista pop precisa ter.



No concurso de miss universo do ano passado, mesmo cercada por algumas das mulheres mais bonitas do mundo, era difícil de não olhar para ela. E Lady GaGa, sem toda a parafernália, é feia, embora gostosa.

A cantora também não sai do personagem. Não gosta de revelar seu verdadeiro nome em entrevistas (diz que todos a chamam de GaGa) e, sem toda a montação, é capaz de passar despercebida na rua. Ou seja, pode-se dizer que, em vez de ser a nova Madonna, ela é, na verdade, a melhor aluna dos reis do pop.

Não apenas alguém que premeditadamente se fez em cima das referências pop, mas um autêntico produto dessa cultura dos clubes gays. Ela, inclusive, já disse que seu primeiro foco foram os gays, que frequenta esses clubes e que é bissexual. Ou seja, essas referências não foram compradas por seus produtores na lojinha do pop.

Além disso, no palco, nunca parece uma marionete da indústria como a Britney, Christina Aguilera, Gwen Stefany, Fergie etc. Muda sempre os timbres de voz, entra e sai da coreografia o tempo todo, sorri, grita...

Talvez por isso, dificilmente vá subir no palco chapada como a Britney e dificilmente será vítima dos paparazzi, como a Amy Winehouse. Aliás, em sua canção 'Paparazzi' ela, ambiguamente, reconhece que, talvez, eles [os paparazzi] sejam as maiores estrelas do showbizz.

Caso você goste de pop e, como eu teimosamente fiz por três semanas, ainda esteja torcendo o nariz para Lady GaGa, a melhor canção para se iniciar (e também a mais grudenta) é 'Poker Face'.

Segundo GaGa, essa expressão é fruto das relações sexuais que tinha com o ex-namorado. Enquanto transava com ele, pensava em outras mulheres e fazia uma cara impassível, como os jogadores de poker, para que o namorado não percebesse o blefe. Algo que os gays brasileiros chamam de 'fazer a egípcia'.

Se a história é verdadeira pouco importa, mas a explicação e a música são ótimas.

Publicado na Folha Online

Publicado em 23 de junho de 2009 às 00:21 por margo

Tags:

Aula de jornalismo nº 1: como criar um factóide


E continuando as festividades pela queda do diploma de jornalismo, começarei a elaborar a primeira das aulas do curso de jornalismo de duas semanas que o Tanga propôs ao Briguet, o que achei deveras uma bela idéia, com acento, embora eu acredite que o curso vá durar muito mais que um curso universitário de quatro anos.

Aliás, estou apenas iniciando o curso. Sugiro que todo mundo que é jornalista, por diplomação ou não, escreva a sua aula e mande para que eu publique aqui com os devidos créditos, caso não tenha blog. Se tiver, mande o link para que eu monte uma série em rede.

Na aula de hoje aprenderemos como criar um factóide com base na experiência americana. Fuçando no site Madonna Online, deparei-me com a notícia seguinte: "Madonna quer fazer pratos típicos para Jesus". O chapéu era HAHAHAHA...

Ou seja, nem as bibas do Madonna Online acreditaram nesse despropósito. Inclusive fizeram uma enquete divertidíssima perguntando qual prato ela devia fazer pra ele (feijoada, vatapá...).

Segundo o site, a notícia foi publicada na revista US e que "uma fonte" teria dito que a Madonna estaria tendo aulas de culinária com a Jessica Seinfeld. Até aí, tudo bem, porque as duas são amigas mesmo. Daí à Madonna ter "aulas de culinária"...



Vamos aos fatos, ou melhor, aos factóides, os meus factóides...

Imgino eu que a cena deve ter ocorrido assim: Estão lá Madonna e Jessica Seinfeld na cozinha da casa que Jerry Seinfeld tem nos Hamptons. Enquanto Seinfeld "twita" em seu computador, as duas conversam sobre o casinho de Madonna com Jesus Luz.

Madonna (com um sorrisinho estúpida e premeditadamente bobo): Oh, Jessica. People think i´m dating Jesus because i want to look superior... But it´s not true... Jessica, i mean it, i´m in love with him.

Jessica (cortando cenouras): You´re not in love. You are feeling like a virgin again, that´s all. This is your paradigma... Because you are a man, Madonna. You need an younger guy around to raise your self-esteem. Besides, being a star, you are completely unable to fall in love with a guy like him. He´s no one. So cut it out!

Madonna (não prestou a menor atenção e continua o número): And i´ve been thinking on having cooking classes with you... I wanna play the happy little housewife to him...


As duas caem na gargalhada.
E as cortinas descem lentamente...

Trabalhando como estagiário do Jerry Seinfeld, uma dessas bichinhas caipiras do meio-oeste americano, que sonha ser roteirista de cinema, presta atenção em toda a conversa.

Ele sai dali. Liga para sua amiguinha inteligente, porém pintosa, que trabalha na US magazine e "vende" a nota da seguinte forma: "Madonna falou que vai ter aulas de culinária para cozinhar para o Jesus." Pronto, está criado o factóide.

A redação da US deve se parecer com a de um site que trabalhei, na editoria de variedades. Aos fins de semana, quando eu cuidava do plantão, era responsável por alimentar a página de "gente & TV". Era uma tortura.

Funcionava assim: o site pagava para que alguns paparazzi do Rio de Janeiro passassem o dia fotografando celebridades e mandando material para a gente. Montávamos galerias de fotos do flagrante para colocar no ar e ganhar mais audiência em cliques no mouse.

Faltava só o que escrever. E esse era meu maior problema. As fotos não diziam nada na maioria das vezes e, quando isso acontece, você parte para a fórmula celebridade + verbo + local + complemento.

Exemplo: "Mylla Christie/Kelly Key/Mulher Melancia + passeia/come/fode + em Ipanema/na Barra/no raio que a parta + com o namorado/com a vó/com a puta que a pariu."

A história da Madonna é até mais fácil de transformar em factóide. Porque, ao que parece, houve um diálogo. Ou seja, a nota existe independentemente da imagem. Dá uma dramaticidade dizer que aquela estrela pop vai cozinhar para um moleque latino-americano filho de uma manicure evangélica.

Aumentam as expectativas sexuais femininas em relação a Jesus Luz ("ele fode a Madonna, a Madonna é a maior puta do mundo, ele deve trepar bem, logo eu quero arrumar um desse") e as dos homens latino-americanos em relação à própria potência sexual e à possibilidade de comer a Madonna.



Rende um monte de cliques, minhas amiguinha.

A classe está dispensada.

P.S.: As imagens são de Norman Rockwell.

Publicado em 19 de junho de 2009 às 00:16 por margo

Tags:

Du-vi-do


O assunto do dia é a obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo, certo?

Eu acho o seguinte: Se, durante uma seleção para repórter que cubra urbanismo e obras públicas, por exemplo, aparecer um cara formado em engenharia ou em arquitetura que saiba escrever bem, mas que não seja formado em jornalismo e um cara formado em jornalismo, sem formação em engenharia, mas com algum conhecimento sobre o assunto _como eu que fiz curso técnico em edificações_ o segundo será contratado. Se o editor não tiver bom senso, pode até contratar o primeiro, mas quem vai durar na carreira é o segundo.

Por um motivo muito simples. O cara formado em jornalismo saberá como procurar as informações e saberá com quem falar sobre o assunto, porque, para o jornalismo, importam mais as aspas de fontes externas para dar a tal "isenção". O famoso "botar na boca de alguém".

Fora isso, o jornalista, como bem disse o Gilmar Mendes, vai cozinhar as informações melhor que o engenheiro, que entende bem de sonadagens e prumos, mas que não vai saber como livrar o leitor de jargões herméticos que os especialistas têm, organizar e hierarquizar as idéias, ou seja, traduzir para uma linguagem minimamente culta e o mais intelegível possível.

O engenheiro servirá muito mais como especialista ou como articulista do que como repórter, já que o repórter não pode expressar opinião.

E, para quem trabalha na edição, o jornalista ainda é o mais adequado para exercer as funções de redator, editor, revisor e pauteiro, pois são aculturados na faculdade a estar por dentro do noticiário, a ter visão critica de certas abordagens e a não se limitar a saber muito sobre um assunto, mas o suficiente sobre todos os assuntos. Um especialista tem esse nome justamente porque se interessa muito por um assunto. Será que ele vai querer saber de tudo um pouco?



Obviamente há exceções. Uma amiga minha aqui da Folha formada em sociologia e com passagem pela faculdade de física. Excelente jornalista: sabe olhar para os fatos com a curiosidade devida, tem espírito contestador e gosta de discutir a realidade. A questão nesse caso, no entanto, não é de formação, mas de talento e de aptidão.

Além disso, o jornalista é mais barato e se sujeita mais às precárias condições de trabalho, já que não tem muitas opções de área de atuação, a não ser dar aula em cursos de jornalismo ou fazer concurso público.

Será que um engenheiro vai querer fazer plantão, pescoção e ganhar o piso da categoria, sem benefícios, sem plano de carreira?

Será que ele vai querer perder seus feriados, os de fim de ano inclusive, pelo salário mixo que os donos dos jornais pagam?

Será que ele vai querer passar um ano ou mais trabalhando sem férias remuneradas, décimo-terceiro, registro em carteira e benefícios?

Será que ele vai querer se sujeitar à superficialidade com que os assuntos que ele preza e nos quais se especializou são tratados pelo jornalismo diário?

Será que ele vai querer abdicar de seu horário comercial de trabalho quando uma avião cair? Ou se meter numa favela em meio a um tiroteio?

Será que ele terá o interesse em discutir o mundo, a humanidade, a sociedade e todas as suas nuances?

Du-vi-do.

Publicado em 18 de junho de 2009 às 16:53 por margo

Tags:

O futuro a Chronos pertence


Eu gosto de fazer aniversário, pois é um dia em que as pessoas dão um jeitinho de, pelo menos, te ver ou de te ligar e te emocionar, como fizeram o Zero e o João, que passavam em frente à minha ex-casa, na Saldanha Marinho, e me deram essa lembrança de presente.

Ontem, por exemplo, teve um reuniãozinha lá em casa, com bolo, coca-cola e gente querida. Fiquei muito feliz.

Mas, se tem uma coisa que me irrita na vida, principalmente em datas supostamente decisivas, são perguntas sobre o futuro.

Meu irmão me perguntou quais as minhas expectativas para mais um ano de vida. Disse para ele que eu não era muito de projetar expectativas em nada nem em ninguém. Que eu era bom em projetar linhas, perspectivas, plantas, cortes e elevações no papel e no AutoCAD.

Outro dia, meu chefe veio com essa, quando pleiteei mudar de função. "O que você pretende estar fazendo daqui a 10 anos?"

"Eu sei lá o que vou estar fazendo em 10 anos...", respondi. Entre outros papinhos de RH, ele concluiu que eu ainda não tenho um perfil definido para a vaga...

Não tenho mesmo e pretendo não ter. Odeio "perfil definido". Aliás, odeio gente que planeja tudo. Odeio gente especializada demais, odeio trabalho alienado demais, setoristas e pequenos feudos.

Primeiro porque não acredito em futuro projetado; segundo porque é de uma arrogância tremenda achar que se pode controlar o tempo; terceiro porque acho um saco a pessoa "saber" tudo que vai acontecer na vida

Não quero saber o futuro. Quero me surpreender... Lido muito melhor com o presente.

Publicado em 17 de junho de 2009 às 13:30 por margo

Tags:

33


Pois é, minha gente, hoje cheguei aos 33. Podem me crucificar...

Sempre que faço aniversário fico pensando em tudo que poderia ter feito se...

Por exemplo, aos 21, pensava: "Puxa, se eu fosse a Alanis Morissette eu seria milionário com 21 anos e já teria viajado o mundo." Só não pensei, na época, que ela ficaria decadente tão rápido, a ponto de fazer shows em Teresina...

Hoje, aos 33, penso: "Puxa, com 33 anos Jesus Cristo já tinha sido crucificado."

E eu? O que fiz da minha vida? Ok, fiz bastante, ou melhor, fiz o possível. Então, por que essa sensação de insaciedade?

Ora, porque Margo nunca está satisfeita, como descrito no diálogo abaixo:

Bill: You have every reason for happiness.
Margo: Except happiness!


E as cortinas descem lentamente...
Fim do primeiro ato.

Publicado em 16 de junho de 2009 às 12:30 por margo

Tags:

Eu sou Margo Channing, uma grande atriz de teatro que leva sua mania de interpretar para a vida real. Isso me permite, na maioria das vezes, falar a todos o que me dá na telha, o que irrita alguns e diverte outros. Eu, pelo menos, me divirto muito.

Os comentários nesse blog são moderados. Apenas usuários cadastrados podem usar esse recurso, e não são apenas os meus amigos, os inimigos declarados e bons de retórica também são aceitos. E antes que alguém reclame, vou logo avisando, isso é um blog, não uma democracia. Anônimos serão sumariamente apagados. Eu gosto de quem mostra a cara e isso aqui não é darkroom para neguinho ficar se escondendo.

ME VEJO NO QUE VEJO



>> Al Vacaeda
>> Blog da PGA
>> Boteco Sujo
>> Cachorro Molhado
>> Homem Tipo Magro
>> Espírito de Porco
>> Midialogismo
>> Mundo Sonoro
>> Papelpop
>> Preto Fosco
>> Te Dou Um Dado
>> Wagner & Beethoven








Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!